Segunda-feira, Dezembro 08, 2003
Não morras
(lágrimas)
Respira! Vá, respira!
Não morras!!!!!
(agora, já só um sussurro)
não morras
(lágrimas)
Respira! Vá, respira!
Não morras!!!!!
(agora, já só um sussurro)
não morras
Segunda-feira, Novembro 24, 2003
O final custa sempre muito. Por vezes costuma ser necessário. Outras é precipitado. Seja qual for o caso, é sempre doloroso. Para o ElMenz e também para mim, é sempre muito difícil encerrar uma fase, mesmo que ela não seja assim tão significativa, por me prender sempre muito ás situações. A partir daí, desespero.
Despeço-me. Vou desesperar, sonhar, pensar e perguntar-me senão era sempre melhor continuar. Nunca sei se é. Apenas sei que me custa muito a aceitar, mas sinto quando tem de chegar o fim.
E chegou. Adeus.
“ This the end, my only friend, the end... ”
Despeço-me. Vou desesperar, sonhar, pensar e perguntar-me senão era sempre melhor continuar. Nunca sei se é. Apenas sei que me custa muito a aceitar, mas sinto quando tem de chegar o fim.
E chegou. Adeus.
“ This the end, my only friend, the end... ”
Domingo, Novembro 23, 2003
doce papa-se acabou a
Muitas mais asneiras ficaram por dizer
Mas os nossos três heróis afastaram-se de tal modo desta Galáxia
que perderam, sem o saberem, a rede com o planeta Terra.
De forma que eles continuam animadamente a enviar as suas
palavras para este blogue, debalde.
A esta hora a cama com os três indivíduos nus
cruza universos inauditos
e as suas elucubrações sábias perdem-se
quem sabe
numa filigrana de luas e astros.
Ficamos todos mais pobres
claro
E os nossos amigos vão deixar muitas saudades.
Talvez um dia
quando eles chegarem ao fim do Universo
regressem ao princípio
e recuperem a rede com o nosso planeta de merda.
Até lá, Mua. Já dizia a Silvia Alberto.
Muitas mais asneiras ficaram por dizer
Mas os nossos três heróis afastaram-se de tal modo desta Galáxia
que perderam, sem o saberem, a rede com o planeta Terra.
De forma que eles continuam animadamente a enviar as suas
palavras para este blogue, debalde.
A esta hora a cama com os três indivíduos nus
cruza universos inauditos
e as suas elucubrações sábias perdem-se
quem sabe
numa filigrana de luas e astros.
Ficamos todos mais pobres
claro
E os nossos amigos vão deixar muitas saudades.
Talvez um dia
quando eles chegarem ao fim do Universo
regressem ao princípio
e recuperem a rede com o nosso planeta de merda.
Até lá, Mua. Já dizia a Silvia Alberto.
I açim damuch pur concluso mais um marco no noço caminho de charadas, rodízios e tropessões tão inevitáveles como umídos, aquontess àus me-lhórech.
Permiteim-me só mais uma peqena veleidade, contar um episódio engraçado com que me deparei outro dia, sexta-feira. Tinha que apanhar um taxi e como estava a chover muito resolvi chamar um de casa. Liguei p'ra a rádio-taxis e, como é normale, uma antipática voz, antipaticamente gravada num antipático gravador, aconselhou-me a aguardar enquanto não atendião a minha chamada. "tudo bem.. não, a sério, não faz mal". Depois veio a musiquinha da praxe. E qual não foi o mê'spanto quando me concedem a grassa d'óvir, enquanto esperava que me atendessem, a música da missão impossível. tam-tam tam-tam-tam-tam tam-tam-tam-tam tam-tam-tam-tam tam-tam tananan-tananan-tananan tanan! Injénuamente, pençei " .. tssk, tssk.. olha eles a darem-me (da) música"
?
"Por isso não percam o próximo episódio, porque nós também não!"
Permiteim-me só mais uma peqena veleidade, contar um episódio engraçado com que me deparei outro dia, sexta-feira. Tinha que apanhar um taxi e como estava a chover muito resolvi chamar um de casa. Liguei p'ra a rádio-taxis e, como é normale, uma antipática voz, antipaticamente gravada num antipático gravador, aconselhou-me a aguardar enquanto não atendião a minha chamada. "tudo bem.. não, a sério, não faz mal". Depois veio a musiquinha da praxe. E qual não foi o mê'spanto quando me concedem a grassa d'óvir, enquanto esperava que me atendessem, a música da missão impossível. tam-tam tam-tam-tam-tam tam-tam-tam-tam tam-tam-tam-tam tam-tam tananan-tananan-tananan tanan! Injénuamente, pençei " .. tssk, tssk.. olha eles a darem-me (da) música"
?
"Por isso não percam o próximo episódio, porque nós também não!"
Quarta-feira, Novembro 19, 2003
- Porque é que a mataste ? Diz-me! Porquê ? –
- Já te disse. Era um cheiro que me causava náuseas. –
- Não brinques comigo. Ela tomava banho. E tinha um daqueles champôs caros –
- Acredito que sim, mas que cheirava mal dos pés, isso meu amigo, cheirava.-
- Não cheirava!-
- Cheirava sim. –
- Não pode ser. Não cheirava. –
- Eu cheirei. Estavas lá ? Não estavas lá, não sabes. Cheirava muitíssimo mal. –
- Mas eu tinha confiança na minha esposa. Ela jurava-me que jamais ia feder dos pés.-
- Quem sou eu para me meter nas relações dos casais não é ? Não gosto. Sabes que não gosto. Mas tive de a matar. Pá, não podes levar a mal. Era cá um cheiro. Somos amigos afinal. Gajas há muitas. -
- Ainda não consigo acreditar. Ela nunca cheirava mal dos pés. –
- Ontem cheirava.... -
- Ela largava gases debaixo dos lençóis, mas isso era romântico, mas dos pés. Custa-me a encarar isso. -
- Elas são assim. Não te deixes abater. Não te podes deixar abalar. Se cheirava mal também não te merecia.
- Ok, ok, mas para a próxima diz-me qualquer coisa. Faz-me uma chamadinha. « Olha a tua mulher cheira muito mal dos pés, vou esfaqueá-la trinta e sete vezes no peito. Era para saberes que hoje quando chegares não há jantar feito ». É para não ser apanhado de surpresa. -
- Não tenho saldo no telemóvel.-
- Ligavas do fixo. Olha, é verdade, não sei se tenho o teu novo contacto. -
- Com sabor, com cheiro, com paladar, com visão, com tacto, contacto. –
- Pois esse não tenho. É vodafone? -
- Já te disse. Era um cheiro que me causava náuseas. –
- Não brinques comigo. Ela tomava banho. E tinha um daqueles champôs caros –
- Acredito que sim, mas que cheirava mal dos pés, isso meu amigo, cheirava.-
- Não cheirava!-
- Cheirava sim. –
- Não pode ser. Não cheirava. –
- Eu cheirei. Estavas lá ? Não estavas lá, não sabes. Cheirava muitíssimo mal. –
- Mas eu tinha confiança na minha esposa. Ela jurava-me que jamais ia feder dos pés.-
- Quem sou eu para me meter nas relações dos casais não é ? Não gosto. Sabes que não gosto. Mas tive de a matar. Pá, não podes levar a mal. Era cá um cheiro. Somos amigos afinal. Gajas há muitas. -
- Ainda não consigo acreditar. Ela nunca cheirava mal dos pés. –
- Ontem cheirava.... -
- Ela largava gases debaixo dos lençóis, mas isso era romântico, mas dos pés. Custa-me a encarar isso. -
- Elas são assim. Não te deixes abater. Não te podes deixar abalar. Se cheirava mal também não te merecia.
- Ok, ok, mas para a próxima diz-me qualquer coisa. Faz-me uma chamadinha. « Olha a tua mulher cheira muito mal dos pés, vou esfaqueá-la trinta e sete vezes no peito. Era para saberes que hoje quando chegares não há jantar feito ». É para não ser apanhado de surpresa. -
- Não tenho saldo no telemóvel.-
- Ligavas do fixo. Olha, é verdade, não sei se tenho o teu novo contacto. -
- Com sabor, com cheiro, com paladar, com visão, com tacto, contacto. –
- Pois esse não tenho. É vodafone? -
Quinta-feira, Novembro 13, 2003
E eu nao tenho nada a dizer?? .. Tenho sim!
Terça-feira, Novembro 11, 2003
Percebo,
embora não o queira enxergar.
Há muito, que as mesmas ideias cagam no meu cérebro. Constatando situações semelhantes, a solução era olhar atentamente a força e a vontade de outros. Era apenas admirar, e julgar-me também capaz.
Agora, talvez desista, falta-me algo.
Talvez por perceber.
Talvez por me identificar.
É duro, ver o tempo passar e ter sempre algo mais por fazer. Curioso que optamos sempre por desdenhar as paixões.
Enfim, percebo.
Resta-me olhar pela janela, aberta, mostrando o mundo ou mostrando o nada, fechar os olhos, deitar-me na cama e comer mais uma bolacha.
embora não o queira enxergar.
Há muito, que as mesmas ideias cagam no meu cérebro. Constatando situações semelhantes, a solução era olhar atentamente a força e a vontade de outros. Era apenas admirar, e julgar-me também capaz.
Agora, talvez desista, falta-me algo.
Talvez por perceber.
Talvez por me identificar.
É duro, ver o tempo passar e ter sempre algo mais por fazer. Curioso que optamos sempre por desdenhar as paixões.
Enfim, percebo.
Resta-me olhar pela janela, aberta, mostrando o mundo ou mostrando o nada, fechar os olhos, deitar-me na cama e comer mais uma bolacha.
Caros amigos,
Para quê mentir? Para quê ocultar? A verdade é que tomei uma decisão importante. Vou abandonar a escrita. Talvez seja só por uns tempos. Talvez seja uma pausa mais demorada. Nem eu sei. Apenas a emergência de me afastar das “palavras” se me afigura inescurecível. Porfiar no erro só agravará a ferida. Preciso de respirar, preciso de “férias”. Ademais, a escrita é para mim uma salvação, quando prosseguida com total disponibilidade e entrega. Fazê-lo parcialmente, é uma tortura insustentável. O mesmo se passou com o Raguêbi. A minha vida universitária vedou-me aquele e veda-me agora esta. O tempo que me sobra dos estudos, serve para ler (pouco) e para satisfação de necessidades básicas (inclusa uma hora no trânsito).
Escrever nos intervalos, escrever mentalmente no trânsito, escrever durante o tempo de estudo (não fazendo bem, nem uma coisa nem outra) só repisa esta amargura. A minha depressão vai caindo perigosamente em abismos escuros donde já não vou conseguindo prever consequências. É um sofrimento que tem de acabar.
A escrita merece-me mais. Merece-me algo que eu não posso dar. Costumo dizer que a escrita é para os ricos e cada vez mais me convenço disso.
Talvez a vida me conceda, no futuro, dias mais folgados, em que eu e a escrita nos possamos reencontrar em paz e plenitude. Enquanto isso não acontece, resta-me sonhar com ela, como quem sonha com o amor.
Peço (mais uma vez) para que não me interpelem com este assunto. É de uma complexidade que me ultrapassa a mim e, muito provavelmente, a vocês. As razões que sabia, expu-las aqui. Todas.
Houve duas pessoas que não respeitaram o meu anterior pedido. Respeitem este, por favor. Respeitem a minha dor. Nunca vos responderei melhor do que aqui puderam ler. Silêncio. Silêncio como ausência de palavra, é o que preciso. Silêncio, que a minha morte ainda demora. E se o romperem, serei polido e educado, nunca honesto.
Para quê mentir? Para quê ocultar? A verdade é que tomei uma decisão importante. Vou abandonar a escrita. Talvez seja só por uns tempos. Talvez seja uma pausa mais demorada. Nem eu sei. Apenas a emergência de me afastar das “palavras” se me afigura inescurecível. Porfiar no erro só agravará a ferida. Preciso de respirar, preciso de “férias”. Ademais, a escrita é para mim uma salvação, quando prosseguida com total disponibilidade e entrega. Fazê-lo parcialmente, é uma tortura insustentável. O mesmo se passou com o Raguêbi. A minha vida universitária vedou-me aquele e veda-me agora esta. O tempo que me sobra dos estudos, serve para ler (pouco) e para satisfação de necessidades básicas (inclusa uma hora no trânsito).
Escrever nos intervalos, escrever mentalmente no trânsito, escrever durante o tempo de estudo (não fazendo bem, nem uma coisa nem outra) só repisa esta amargura. A minha depressão vai caindo perigosamente em abismos escuros donde já não vou conseguindo prever consequências. É um sofrimento que tem de acabar.
A escrita merece-me mais. Merece-me algo que eu não posso dar. Costumo dizer que a escrita é para os ricos e cada vez mais me convenço disso.
Talvez a vida me conceda, no futuro, dias mais folgados, em que eu e a escrita nos possamos reencontrar em paz e plenitude. Enquanto isso não acontece, resta-me sonhar com ela, como quem sonha com o amor.
Peço (mais uma vez) para que não me interpelem com este assunto. É de uma complexidade que me ultrapassa a mim e, muito provavelmente, a vocês. As razões que sabia, expu-las aqui. Todas.
Houve duas pessoas que não respeitaram o meu anterior pedido. Respeitem este, por favor. Respeitem a minha dor. Nunca vos responderei melhor do que aqui puderam ler. Silêncio. Silêncio como ausência de palavra, é o que preciso. Silêncio, que a minha morte ainda demora. E se o romperem, serei polido e educado, nunca honesto.
Segunda-feira, Novembro 10, 2003
Escatologia do Insecto
A velha estava deitada, nua,
sob um pesado cobertor cor de rosa.
Movia incessantemente a cabeça enrugada
de um lado para o outro.
Murmurava e estertorava baixinho
posto que ninguém a ouviria.
Tinham passado dois dias
e a morte não estava longe.
Ao fim do primeiro dia já não tinha nome
nem passado -
uma misericordiazinha não se sabe donde.
Os gemidos vinham do corpo desde então,
não se detectavam neles
o arrastamento da súplica.
A velha estava deitada, nua,
sob um pesado cobertor cor de rosa.
Movia incessantemente a cabeça enrugada
de um lado para o outro.
Murmurava e estertorava baixinho
posto que ninguém a ouviria.
Tinham passado dois dias
e a morte não estava longe.
Ao fim do primeiro dia já não tinha nome
nem passado -
uma misericordiazinha não se sabe donde.
Os gemidos vinham do corpo desde então,
não se detectavam neles
o arrastamento da súplica.
Joanetes em Caborabaça
Pudesse eu recuperar o meu coração daquela ara fria
Há que cruzar mares, perigos e traições, até chegar a uma ilha perdida onde o Inverno não cessa. Chamemos-lhe a Ilha do Inverno. O seu solo é árido e pedregoso. É plano o suficiente para que o vento varra inclemente, estripando toda a matéria viva e vedando a possibilidade de lá pousarem sementes. A terra é cinzenta, compacta e pesada. As rochas estão laminadas pela hostilidade gélida do vento. Ao centro da Ilha do Inverno jaz uma rocha monolítica. Não é tão grande que se lhe chame rochedo, também não é pedra porque germina da terra - cose-se com ela. No cimo da rocha há uma concavidade que recebe a água das chuvas. Os antigos utilizavam-na como pia baptismal. Aquela água provinha do céu, logo, era necessariamente benta.
É nessa bacia mineral que está o meu coração.
pulsa o músculo vivo um punho vermelho de veias gordas e insistentes
Os seus tecidos exteriores são constantemente arranhados pelos líquenes, que matizam toda a rocha daquele verde Inverno.
Serpenteiam pequenos veios de sangue.
O meu coração luta contra a frialdade da água rósea
numa anemia de sentimentos.
Pudesse eu recuperar o meu coração daquela ara fria
Há que cruzar mares, perigos e traições, até chegar a uma ilha perdida onde o Inverno não cessa. Chamemos-lhe a Ilha do Inverno. O seu solo é árido e pedregoso. É plano o suficiente para que o vento varra inclemente, estripando toda a matéria viva e vedando a possibilidade de lá pousarem sementes. A terra é cinzenta, compacta e pesada. As rochas estão laminadas pela hostilidade gélida do vento. Ao centro da Ilha do Inverno jaz uma rocha monolítica. Não é tão grande que se lhe chame rochedo, também não é pedra porque germina da terra - cose-se com ela. No cimo da rocha há uma concavidade que recebe a água das chuvas. Os antigos utilizavam-na como pia baptismal. Aquela água provinha do céu, logo, era necessariamente benta.
É nessa bacia mineral que está o meu coração.
pulsa o músculo vivo um punho vermelho de veias gordas e insistentes
Os seus tecidos exteriores são constantemente arranhados pelos líquenes, que matizam toda a rocha daquele verde Inverno.
Serpenteiam pequenos veios de sangue.
O meu coração luta contra a frialdade da água rósea
numa anemia de sentimentos.
Cheias em Alverca
Na cidade a água, suja.
As pessoas retraiem-se - como anémonas tangidas
De braços erguidos pendem no sentido da água.
Que na cidade só suja.
A cidade, onde tudo se inverte.
Portanto, onde eu disse braços erguidos
Erguidos para o chão.
Tentáculos frágeis e venenosos
Inflexões súbitas numa fleuma aquosa,
Cuja razão última remontará à Lua.
Contrácteis e venenosos,
Anémonas num lodaçal
de tentáculos hirsutos
uivando no sentido
da água
da Lua.
Na cidade a água, suja.
As pessoas retraiem-se - como anémonas tangidas
De braços erguidos pendem no sentido da água.
Que na cidade só suja.
A cidade, onde tudo se inverte.
Portanto, onde eu disse braços erguidos
Erguidos para o chão.
Tentáculos frágeis e venenosos
Inflexões súbitas numa fleuma aquosa,
Cuja razão última remontará à Lua.
Contrácteis e venenosos,
Anémonas num lodaçal
de tentáculos hirsutos
uivando no sentido
da água
da Lua.
Sexta-feira, Novembro 07, 2003
Da suposta Constituição Europeia e da sua incidência redutora na área dos Direitos Fundamentais dos cidadãos.
Num esforço de preocupação com os temas que mais preocupam o futuro do nosso país, o InterMúndio inicia com o texto abaixo uma série de ensaios versando as questões "quentes" da actualidade nacional e europeia. Desta forma lograremos dar um cunho mais pragmático e interventivo à essência deste blog (já de si vocacionado para o progresso da sociedade portuguesa).
Trazia a ancestralidade das estrelas
na exiguidade dos olhos - um brilho quase imperceptível.
Um focinho agudo de animal roaz.
Um cabelo ralo e grisalho, absolutamente irrelevante.
Volatizava-se num respiro a solicitude protocolar.
A tristeza crismava-lhe o semblante - desgraçado:
Tu és linda
Tu és feita de Lua
(...com uma lágrima de sol)
Eu amo-te.
Vagidos enfarinhados,
um fio de areia que era um fio de voz.
Tecida com raios/fios de Lua e um de Sol
Eu areia
Virgem, mal cardada.
Enculmino num zénite de montanha
em cujo lado recebo os ecos do teu sofrimento
em cujas escarpas...
talvez o meu nome no meio delas.
Eu com a minha mãe tive uma relação umbilical.
Acho que não tive mais nenhuma, entretanto.
Se quiseres ser personagem (observam-te, mas não observas)
não poderás ser um deus,
portanto não poderás ser escritor.
As tuas pálpebras fecham num pingo de gruta,
alertam-me,
atrás delas eu criança, depois abrem-se e eu já adulto.
Tão rápido! ainda agora ele era criança
afinal adulto
um remorso quem sabe
um arrependimento
aquela sensação desesperada de querer genuinamente que o tempo
possa regressar.
Afinal ele já é um adulto.
Quando fechei os olhos passei a ver-me, só a mim.
E quando os descerrei, como que por magia, ele já adulto.
Engraçado desejar o regresso do tempo, se ele está sempre um passo à frente.
Um dia ela há-de arguir assim: "Mas eu criei-te dentro de mim!"
Eu respondo: "Pois foi, com pão, sopa, fruta, bife, pipocas, peixe, tudo filtrado pelo cordão umbilical".
Vou ao supermercado e compro tudo aquilo, menos o cordão umbilical
que tive de substituir por um micro-ondas topo de gama.
Estamos quites. Obrigado, foi um bom negócio.
Constituição Europeia
P.s. (d) não tentem arrumar o poema
Num esforço de preocupação com os temas que mais preocupam o futuro do nosso país, o InterMúndio inicia com o texto abaixo uma série de ensaios versando as questões "quentes" da actualidade nacional e europeia. Desta forma lograremos dar um cunho mais pragmático e interventivo à essência deste blog (já de si vocacionado para o progresso da sociedade portuguesa).
Trazia a ancestralidade das estrelas
na exiguidade dos olhos - um brilho quase imperceptível.
Um focinho agudo de animal roaz.
Um cabelo ralo e grisalho, absolutamente irrelevante.
Volatizava-se num respiro a solicitude protocolar.
A tristeza crismava-lhe o semblante - desgraçado:
Tu és linda
Tu és feita de Lua
(...com uma lágrima de sol)
Eu amo-te.
Vagidos enfarinhados,
um fio de areia que era um fio de voz.
Tecida com raios/fios de Lua e um de Sol
Eu areia
Virgem, mal cardada.
Enculmino num zénite de montanha
em cujo lado recebo os ecos do teu sofrimento
em cujas escarpas...
talvez o meu nome no meio delas.
Eu com a minha mãe tive uma relação umbilical.
Acho que não tive mais nenhuma, entretanto.
Se quiseres ser personagem (observam-te, mas não observas)
não poderás ser um deus,
portanto não poderás ser escritor.
As tuas pálpebras fecham num pingo de gruta,
alertam-me,
atrás delas eu criança, depois abrem-se e eu já adulto.
Tão rápido! ainda agora ele era criança
afinal adulto
um remorso quem sabe
um arrependimento
aquela sensação desesperada de querer genuinamente que o tempo
possa regressar.
Afinal ele já é um adulto.
Quando fechei os olhos passei a ver-me, só a mim.
E quando os descerrei, como que por magia, ele já adulto.
Engraçado desejar o regresso do tempo, se ele está sempre um passo à frente.
Um dia ela há-de arguir assim: "Mas eu criei-te dentro de mim!"
Eu respondo: "Pois foi, com pão, sopa, fruta, bife, pipocas, peixe, tudo filtrado pelo cordão umbilical".
Vou ao supermercado e compro tudo aquilo, menos o cordão umbilical
que tive de substituir por um micro-ondas topo de gama.
Estamos quites. Obrigado, foi um bom negócio.
Constituição Europeia
P.s. (d) não tentem arrumar o poema
Segunda-feira, Novembro 03, 2003
Amanhece noite estupidamente
Um click, um candeeiro acendeu-se.
Um farfalhar de lençóis, um homem bocejou.
Longamente.
Boceja assim quem está em paz com tudo.
Uma janela entaipada, era a noite que entaipava a janela.
Lá fora,
sob a nitidez das estrelas
corria um vento gélido
sob a forma de uma folha voadora.
Era um vento tão frio quanto certeiro.
Um vento fino e doloroso.
E a folha seca
julgar-se-ia a única vítima daquele Outono.
Golpeiam o pano negro línguas de vermelho crepúsculo?
Não
porque amanhece noite estupidamente.
Um click, um candeeiro acendeu-se.
Um farfalhar de lençóis, um homem bocejou.
Longamente.
Boceja assim quem está em paz com tudo.
Uma janela entaipada, era a noite que entaipava a janela.
Lá fora,
sob a nitidez das estrelas
corria um vento gélido
sob a forma de uma folha voadora.
Era um vento tão frio quanto certeiro.
Um vento fino e doloroso.
E a folha seca
julgar-se-ia a única vítima daquele Outono.
Golpeiam o pano negro línguas de vermelho crepúsculo?
Não
porque amanhece noite estupidamente.
Domingo, Novembro 02, 2003
O pessoal fala, mas nunca ninguém pergunta se o Zeca Afonso já morreu. Será porque toda a gente sabe, ou porque ninguem se interessa? Se calhar ninguem tem tempo para isso. Ou então é só por acaso. É como haver gente que gosta de falar de lugares comuns, e melhor, quem goste de ouvir falar de lugares comuns, e melhor, quem se ria de piadas feitas e de piadas gastas. Assim sendo, deixem-me apresentar uma lista de personalidades que, a meu ver, têm alma para fazer seja o que for:
Toldos - apesar de ter pêlo nojolhos
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Elmenz - apesar de ter pêlo nojolhos
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ZePingusDoce - apesar de ter pêlo nojolhos
O pior é que não posso citar nomes, nem enfiar 1 selo na cabeça das pessoas que me desiludem. Outro dia testemunhei uma declaração, perdão... uma confissão (!), num desses constipados ambulantes de propagação de loucura, da carris, que reflecte o actual estado das consciências. Sinceramente, apeteceu-me levantar e aplaudir efusivamente a dita máxima. Foi o seguinte.. uma criança pergunta à mãe, a porpósito de uma qualquer indicação no trânsito:"Quem são os peões?" A mãe responde "os peões somos nós".
Toldos - apesar de ter pêlo nojolhos
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Elmenz - apesar de ter pêlo nojolhos
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ZePingusDoce - apesar de ter pêlo nojolhos
O pior é que não posso citar nomes, nem enfiar 1 selo na cabeça das pessoas que me desiludem. Outro dia testemunhei uma declaração, perdão... uma confissão (!), num desses constipados ambulantes de propagação de loucura, da carris, que reflecte o actual estado das consciências. Sinceramente, apeteceu-me levantar e aplaudir efusivamente a dita máxima. Foi o seguinte.. uma criança pergunta à mãe, a porpósito de uma qualquer indicação no trânsito:"Quem são os peões?" A mãe responde "os peões somos nós".
" Era um homem digno, honrado, exemplar. Foi bom filho, bom marido, bom pai. Tinha o sentido da justiça, sacrificou-se por ela, amava o seu semelhante. E ajudou toda a gente nas situações difíceis. Daí que o louvassem e respeitassem. Daí que o seu enterro aglomerasse a aldeia inteira. Morreu á pouco tempo, aí coisa de trezentos anos. Quem foi ? "
In Escrever, Vergilio Ferreira.
In Escrever, Vergilio Ferreira.
Sexta-feira, Outubro 31, 2003
Música
É fria a chuva que cai gorda numa madrugada de sol.
Chuva fria que surpreende os viandantes
Eles correm atordoados, lá em baixo,
em busca de...
si mesmos
Fim
Por outro lado, eu ponho os fones
a cabeça enche-se de música
atenua os pensamentos
Quando chove assim eu não corro
Deixo a roupa beber até ao calafrio
numa resignação cheia de música
Qual estoicismo, qual quê!
Não provoco nada, é a música
que totaliza, não preciso de correr.
E quando não há música?
Fica aquela melancolia muda
que adorna a flor e o pneu
Serve o mesmo fim da música
- Cobarde!
Antes cobarde que o seu antónimo:
idiota. Coragem? coisa tão gregária
débil
Os heróis são sempre uns valentes labregos
- E tu és uma pústula purulenta e pletórica que exsuda miasmas pútridos
A culpa não é minha. Varram-me para debaixo do tapete que eu agradeço
E não me macem, não tenho pachorra para vocês.
Se soubessem a quantos centímetros estão do meu gume, fugiam um pouco mais rápido.
Que querem que eu faça, se me acho mais bonito com uma faca vermelha na mão?
Salva-vos a música, doce música
É fria a chuva que cai gorda numa madrugada de sol.
Chuva fria que surpreende os viandantes
Eles correm atordoados, lá em baixo,
em busca de...
si mesmos
Fim
Por outro lado, eu ponho os fones
a cabeça enche-se de música
atenua os pensamentos
Quando chove assim eu não corro
Deixo a roupa beber até ao calafrio
numa resignação cheia de música
Qual estoicismo, qual quê!
Não provoco nada, é a música
que totaliza, não preciso de correr.
E quando não há música?
Fica aquela melancolia muda
que adorna a flor e o pneu
Serve o mesmo fim da música
- Cobarde!
Antes cobarde que o seu antónimo:
idiota. Coragem? coisa tão gregária
débil
Os heróis são sempre uns valentes labregos
- E tu és uma pústula purulenta e pletórica que exsuda miasmas pútridos
A culpa não é minha. Varram-me para debaixo do tapete que eu agradeço
E não me macem, não tenho pachorra para vocês.
Se soubessem a quantos centímetros estão do meu gume, fugiam um pouco mais rápido.
Que querem que eu faça, se me acho mais bonito com uma faca vermelha na mão?
Salva-vos a música, doce música
Quinta-feira, Outubro 30, 2003
Antigo Artigo Antigo
Ao abrir um caderno velho deparei-me com um texto antigo, desdatado. Achei-o engraçado e resolvi publicá-lo.
"Uma senhora na biblioteca desejou-me "umas boas férias!". Foi afável e trabalha para o Estado- não é espantoso? Aquilo tangeu-me a polpa sob a casca dura e tracei um sorriso genuíno, daqueles que arriscam a fealdade e a palermice. As comissuras dos meus lábios não têm aquela ductibilidade das do povo, por isso o meu sorriso é um esgar de dor, só perceptível em situação contextuada.
Será que ela me desejou umas boas férias por eu ter o cabelo despenteado e envergar calções de banho no meio da cidade caliginosa?
Quando chego a casa e estando ela sempre vazia à minha chegada, as plantas são as primeiras a cumprimentarem-me. Rasgam gritos de desespero, lamentando-se continuamente como um cântico do limbo inferior. Que aquela estanquecidade, aquela ausência de vento, que aquele silêncio lhes cresta a vida. Eu digo que não tenho culpa, que nada posso fazer, e elas calam-se; mas não deixam de me olhar, reprovadoras. É claro que não suporto muito tempo aquela censura e peço-lhes "perdão! mas também me cercearam a maldade! As nossas lágrimas pingam da mesma fonte!" Elas respondem-me cantando: "É só porque não temos para onde olhar". E emudecemos todos em circunstância suspensa. Está tudo tépido e chato. Lá fora, o céu crepuscular forma matizes licorosos, ensaiando cores inauditas. Algumas estrelas cintilam prematuramente. Então, observando-me sem atenção, as plantas da minha casam ficam a sonhar com o vento e com insectos e eu sento-me a sonhar comigo, multímodo."
- Miguel
Primeiro é: quem é Miguel?
- Miguel
- Miguel
- Miguel
- Miguel
- Miguel
- Miguel
- Miguel
- Miguel
- Miguel
- Miguel
Agora é: o que é Miguel?
Eu vi a sua mão drapejando entre a chuva, ousando o exterior. Não, já não era humana.
Ao abrir um caderno velho deparei-me com um texto antigo, desdatado. Achei-o engraçado e resolvi publicá-lo.
"Uma senhora na biblioteca desejou-me "umas boas férias!". Foi afável e trabalha para o Estado- não é espantoso? Aquilo tangeu-me a polpa sob a casca dura e tracei um sorriso genuíno, daqueles que arriscam a fealdade e a palermice. As comissuras dos meus lábios não têm aquela ductibilidade das do povo, por isso o meu sorriso é um esgar de dor, só perceptível em situação contextuada.
Será que ela me desejou umas boas férias por eu ter o cabelo despenteado e envergar calções de banho no meio da cidade caliginosa?
Quando chego a casa e estando ela sempre vazia à minha chegada, as plantas são as primeiras a cumprimentarem-me. Rasgam gritos de desespero, lamentando-se continuamente como um cântico do limbo inferior. Que aquela estanquecidade, aquela ausência de vento, que aquele silêncio lhes cresta a vida. Eu digo que não tenho culpa, que nada posso fazer, e elas calam-se; mas não deixam de me olhar, reprovadoras. É claro que não suporto muito tempo aquela censura e peço-lhes "perdão! mas também me cercearam a maldade! As nossas lágrimas pingam da mesma fonte!" Elas respondem-me cantando: "É só porque não temos para onde olhar". E emudecemos todos em circunstância suspensa. Está tudo tépido e chato. Lá fora, o céu crepuscular forma matizes licorosos, ensaiando cores inauditas. Algumas estrelas cintilam prematuramente. Então, observando-me sem atenção, as plantas da minha casam ficam a sonhar com o vento e com insectos e eu sento-me a sonhar comigo, multímodo."
- Miguel
Primeiro é: quem é Miguel?
- Miguel
- Miguel
- Miguel
- Miguel
- Miguel
- Miguel
- Miguel
- Miguel
- Miguel
- Miguel
Agora é: o que é Miguel?
Eu vi a sua mão drapejando entre a chuva, ousando o exterior. Não, já não era humana.
Quarta-feira, Outubro 29, 2003
A Irmã Lurdes, Não te preocupes
Eu até tenho muito que fazer e não deveria estar a perder tempo com porcarias destas, mas que fazer? Quando vocês pedem, caros leitores, eu não sei recusar. Por isso aqui está mais um texto eivado de pornografia barata. Estava (estou) particularmente bêbedo, pelo que me deu um intenso prazer escrevê-lo. Contudo, muito sinceramente, acho-o um tremendo Vesúvio de merda. Bem, sejam indulgentes...
Quando tenho muito, muito medo, os meus gestos antecipam-se, os meus olhos saltam na imagem à procura de salvação, as pessoas são feitas de detalhes. Ou seja, quando tenho muito medo fico bêbedo. E quando estou bêbedo e fumo, respiro veludos cremosos, docemente acres, sem que sobrevenha uma recriminação da consciência. Quando tenho muito medo posso fumar à vontade. Insuflo prazer, expiro calma e segurança – soprar o fumo é um suspiro de desprezo para o mundo. A morte cose-se mais na sombra e eu nem dou por ela. Isto quando tenho muito medo.
E quando me obcecava o medo por qualquer coisa, nunca era pela morte – nunca tive essa humildade. Era muito complexo. Nos tempos que correm o termo é “sofisticado”. Obcecava-me por coisas transitórias, suspensas. Precárias. Portanto, os meus medos eram obsessões. Por coisas lábeis. E a minha memória seguia as obsessões, pelo que vivia nelas, só nelas.
Eu vivia nas obsessões.
Por isso a memória trazia o segundo casamento dos meus pais que estava suspenso numa iminência.
Trazia as análises ao sangue.
Trazia a noite anterior com a Isabel.
Trazia sombras e respiros, que nem hoje posso
Tudo coisas suspensas, aguardando desfecho.
Eu era muito impet
Não, não, assim não consigo. Doutra forma.
Comprara o jornal por um motivo específico, mas acabei por usá-lo para queimar tempo. Desfolhava-o com calma sem conseguir ler uma linha seguida. Quando tinha muito medo conseguia desfolhar os jornais com certa elegância, sem que dobrasse folhas ou elas me caíssem nos joelhos.
Mesmo estando sentado ao volante do carro, sem plena liberdade de movimentos, passeava as folhas do jornal com grande desenvoltura.
Ou melhor, se calhar lia, mas não isolava palavras, não lhes dava um significado.
O meu carro ainda cheirava a pai, a homem maduro, a um perfume morno que amaciava.
Gostava muito do cheiro daquele carro. O odor masculino dos estofes de pele. Os estofes que brilhavam luxo, conforto, onde a Isabel (a princípio) deslizava a enroscar-se em requebros de cio.
Os estofes. O cheiro. O jornal. À espera de quê?
Os dedos amarelos e cascosos com unhas de madeira. Em casa da minha avó, na província, insectos por todo o lado, até dentro da minha roupa, a espetar ferrões com pêlos e venenos. Sangue a correr para o ralo, o escoadoiro, num rio de lacre quente. O cheiro a penas molhadas na água a ferver. Os coelhos, tão bonitos, em espasmos estúpidos – sem se queixarem. Depois pendurados de cabeça para baixo num prego na parede. A minha avó despia-lhes o casaco de felpa e eles magros cheios de frio. A parede do prego deixava ver tijolo áspero com reentrâncias de cimento. A cadela gorda de tetas chuchas, a rilhar a corrente – vinagre nas orelhas por causa das moscas na desova – a ladrar tosse, estrangulada pela coleira, a corrente a percorrer um arame de estendal.
Lembro-me que era em Camarate. Ainda hoje Camarate soa com um estalo. Prédios velhos e sujos por um ranço tóxico de fumos. O poviléu enxuto, turvado, à espera que o semáforo lhe desse um verde.
Os velhos azedos, beberricando cerveja e caracóis nas tavernas de plástico.
Um carro de ricos a cheirar a homem perfumado de notas, estacionado à frente do prédio onde aquelas desavergonhadas
à espera que o tempo passasse para que elas pensassem que eu vinha de longe, que não tinha telefonado dali.
A porta de vidro e alumínio bateu atrás de um jovem, um adolescente feio e bexigoso, que saiu do prédio com mais borbulhas, mais tímido ainda...
Eu sairia de lá mais...?
aquele valhacouto de desgraçadas
covil de drogadas?
Experimentava um nervosismo (não ansiedade) de primeira vez. No entanto, não era a primeira vez que ali estava
Sempre que telefonava (cheio de medo) falava demais, com delicadeza e elas
drogadas?
primeiro desconfiadas, depois riam-se e chamavam-me morzinho
quando eu colocava perguntas absurdas
- Posso escolher?
e elas
- claro morzinho, somos seis amiguinhas, etc...
O jornal continuava a rolar
Daquela vez é que seria. Daquela vez entraria. Daquela vez não me cairiam lágrimas antes de o dedo na campainha. Não fugiria para o carro acelerando pelo sinal vermelho – verde para o poviléu.
“E se te vêem? Ainda melhor, não é?”
Não.
Claro que é.
Momentos depois, uma frágua ardendo em labaredas que lhe lambiam as nádegas macias, vibráteis, que a queimava até às raízes das coxas. O tinir pressuroso da fivela do cinto, o zip do fecho das calças, as minhas mãos de homem a cingirem-lhe a cintura, gemidos fora de qualquer encenação derivado ao fogo e às labaredas, o leite morno a humilhá-la, os meus músculos tonificados, brilhantes, as minhas nádegas rijas, a robustez das minhas pernas em força.
É tudo mentira. Nem tenho músculos, nem as minhas mãos são de homem, porque nunca um dedo na campainha.
Mas seria aquela a vez em que tudo mudaria.
- Será necessário que leve preservativos?
- Oh, morzinho
é o que há mais em Angola
De súbito, o jornal acorda com uma notícia interessante: a filha de um conhecido empresário brutalmente assassinada
Conhecia-a. Creio que uma amiga de Isabel. Sim, uma amiga de Isabel.
Brutalmente espancada. De uma violência inconcebível. Sem pistas. Premeditado. Serial Killer Português?. Dizia o jornal.
Assassino? Ou assassina?
Assassino. Não homicida. Assassino.
A minha imaginação a fervilhar e outro medo a emergir. Uma mulher, uma jovem, sangue, sangue, violência, gritos abafados por uma mão de homem, por uma corda, um fio cortante. Não facas nem balas.
Força e violência. Um assassino em cima das argolas, dos anéis, dos cabelos com madeixas de ouro, do corpo voluptuoso, da roupa cara, do perfume francês, do sorriso soberbo, do riso comedido. Um assassino a esmurrar tudo isto, a macerar, a desfigurar, a amiga da Isabel escoriações, sangue, guinchos tão tão deselegantes, um riso de dor e humilhação, a pedantaria tão longe e o assassino a ver tudo aquilo
- Estás a chorar ou a rir?, já nem consigo distinguir puta de merda
só ele a ter essa vitória, a tê-la para si, a subjugar a Isabel e as amigas, a cuspir para elas...Um joelho a pisar seios morenos, o orgulho dos seios, os cabelos de oiro e flor a beber a lama do chão junto a um passeio talvez uma seringa próxima da cabeça dela e as mãos do assassino assépticas, cabedal luzidio, inexorável.
As luvas do assassino a penetrarem uma prostituta. Abrir a porta do carro. O meu sapato mastigou o alcatrão, eu a imaginar luvas de pele nas minhas mãos, a engrossá-las, um dedo de pele preta na campainha, a insistir. A prostituta:
- Morzinho?
- Abre a porta – disse o cabedal.
Um elevador velho com portas de grades, os cabos de aço a estalarem de esforço, o meu coração frio, inexorável.
Depois uma preta pequena e gorda, com um sorriso de dentes separados. Um
- Bom dia
em português de Portugal. A alcoviteira, com certeza. A alcoviteira
E afinal já lá estava, à porta do bordel?
À porta do apartamento onde se prostituíam brasileiras, portanto aquela era a alcoviteira.
- entre, entre.
Um sorriso agora sem dentes, os olhos pequenos sem fixarem os meus, antes nos tapetes puídos sobre alcatifa clara
- por aqui.
Um corredor estreito com as portas todas fechadas. As paredes despidas de quadros, só paredes de um branco sujo à míngua de luz. Uma porta aberta ao fundo do corredor. Uma sala de estar com sofás de napa azul, ar condicionado, uma janela sem cortinados, quadros com linhas eróticas, um mini-bar, um televisão com telenovelas.
- Pode se sentar.
Obrigado – a minha voz de cabedal, sem vestígio de frio, contínua e firme. O meu carro de homem maduro estacionado até eu acabar; quando eu saísse de lá mais...?
- Esteja à vontade, se quiser servir-se de uma bebida. Eu vou buscar as meninas
“Buscar”, logo as meninas são bonecas, senão “Chamar”.
- Obrigado.
A alcoviteira fechou a porta e eu fiquei sozinho, de perna cruzada, um friozinho aflorando no cabedal que se ia parecendo cada vez mais com a minha própria pele.
Sozinho com a telenovela, a esfregar as mãos e os joelhos, a energia a fugir-me do corpo e o fio em lugar dela. Se fosse criança chorava. Sentia o apelo das lágrimas algures na garganta. Ao observar as minhas mãos brancas fisgo o ouro da aliança. Pensei em tirá-la, em escondê-la no compartimento das moedas na carteira de
cabedal
mas resolvi ficar com ela, para ser mais
Mais o quê?
“Lá em Angola íamos às pretas porque éramos homens, percebes? Eu já estava casado com a tua mãe, mas íamos todos às pretas. Geralmente íamos às pretas quando chegávamos do mato. Enfrascávamo-nos com uísque e depois íamos às pretas. Até o general ia às pretas. Quer dizer, as pretas iam ao general. Oh, uma coisa que nunca faltava em Angola era uísque. Uísque e pretas”
Eu, ele tremia muito, tremia demasiado perante a porta que se abriria a qualquer momento. A expectativa infundia-lhe cada vez mais uma espécie indefinível de medo que começava, perigosamente, a raiar o pânico. Esforçava-se por combater esse frémito irreprimível mas o coração palpitava-lhe no peito, uma veia palpitava-lhe no ouvido anulando as falas dos actores brasileiros. A pulsação retumbava dentro da sua cabeça e a cada batimento o novelo de medo enfolava-se-lhe nas mãos, nos maxilares, nos joelhos, nos olhos que só viam a porta.
A porta. Toda a realidade se confinava àquela porta branca.
Uns risos meio reprimidos soaram no corredor, risos como os das suas colegas no Liceu, quando comentavam os rapazes a jogarem à bola na aula de educação física.
Eu nunca jogava à bola.
O medo passou pelo pânico mas logo se tornou branco, quando extravasou razão afora. Não sei se me fiz entender, mas foi exactamente assim aquilo que ele sentiu. O medo branco como uma ofuscação, um instante de eclipse em que os braços caiem e os lobos não têm de lutar mais porque, afinal, eu nasci para eles me comerem.
Os risos aumentaram para cessarem quando a preta gorda e baixa abriu a porta. Deixou passar a primeira menina fechando-me com ela na sala.
Era muito alta, tinha cabelos negros e compridos, a pele muito branca, mas os traços do seu rosto não escondiam as suas origens brasileiras, índias ou africanas. Envergava uma espécie de corpete negro e umas cuecas fio dental da mesma cor. Tinha um busto enorme, barriga lisa, ancas largas e pernas bem desenhadas. Dirigiu-se a ele com um sorriso bem maquilhado
- Olá, eu sou a Bruna – num tom melífluo e enfadado, como se estivesse farta de dizer sempre a mesma frase a sempre o mesmo homem.
Ele estava extasiado, mas não pela voluptuosidade daquela jovem que aparentava não mais que vinte anos. Ergueu-se um pouco do sofá – sem que as pernas cedessem, como temera – e recebeu os dois beijos sonoros que o protocolo da casa preceituava. Depois ela virou-se num volteio de manequim, caminhando afectadamente até à porta com as duas nádegas empinadas a sorriem-lhe a cada passo.
A porta voltou a abrir-se para deixar sair a primeira e entrar uma segunda. Esta era mais baixa, mais brasileira, de cabelos negros. Trazia um sorriso rasgado ao qual o jovem novo de fato e perna cruzada não conseguiu responder.
- Olá, eu sou a Carla, Dora, Samanta, Cátia, Neize.
Quando o último par de nádegas se despediu num riso saltitante, entrou a alcoviteira.
- Então, gostou? – tinha as palmas das mãos servilmente juntas.
- Gostei, gostei muito – respondendo do mesmo modo que o fazia quando a sua mãe, de olho negro, lhe perguntava se ele gostara da mousse de chocolate.
- E então, já escolheu?
- Pode ser a primeira.
- A Bruna. Muito bem.
Ia dizer “obrigado” quando o homem de cabedal o travou. Foi o homem de cabedal quem tomou conta das operações daí para a frente.
Finalmente saía daquela sala. A brasileira, um palmo mais alta do que ele, levou-o por uma mão até uma casa-de-banho ampla.
- Por aqui, morzinho.
Tinha a mão fria, levemente húmida, parecida com a sua. Contudo, recorde-se, agora a sua era de cabedal.
Na casa-de-banho, emparedada com azulejos azuis embaciados por um perfume vaporoso a duche, pôde ver, não sem certa estranheza, os objectos tão triviais e íntimos das prostitutas - champôs, escovas e pastas de dentes – com pequenas etiquetas designando a respectiva dona. Tirou um macaco do nariz e comeu. Perguntou à prostitua:
- Queres um?
- Claro, são de caranguejo?
- Não, são de galinha.
- Então pode tirar a roupa.
O homem enluvado sentiu uma ameaça de arrepio, mas que só serviu para o determinar ainda mais.
Começou por desafivelar o cinto e duma vez despiu as calças, as cuecas e as meias.
Bruna soltou um riso inofensivo, talvez de espanto.
- Já está com o pau grande, meu Deus!
Colocou as calças numa cadeira que ali estava. Entreviu a sua imagem reflectida num espelho. Gostou do que viu: um homem de olhar irredutível, ainda de blaser e gravata, com uma grossa erecção a levantar-lhe a camisa. Também conseguiu ver o olhar sorridente que Bruna lhe deitava no pau.
- Você é muito bonito...Se sente aí no bidé. Vamo lavar esse pauzão – riu.
Antes de genuflectir, sentando-se no esmalte frio do bidé, livrou-se da roupa que ainda tinha vestida. Bruna accionou a torneira, esperou pela água morna, esfregou as mãos com um sabonete líquido cor-de-rosa e começou a lavar-lhe as virilhas, o pénis e o ânus. Além do prazer mais epidérmico, a diligência da jovem ao lavá-lo trouxe-lhe uma agradável recordação de cuidados maternais, ou talvez uma reminiscência genética dos tempos idos em que as mulheres tratavam da higiene dos seus maridos. De qualquer forma, a intimidade daqueles gestos, os traços de ternura bem evidentes no rosto da jovem, estavam a corroer a intrepidez dessoutra entidade que se sobrepunha, dominando-o, ao homem assustado. Talvez por isso não se tenha admirado quando sentiu a sua mão deslizar por entre as nádegas da prostituta, que estava ajoelhada a seu lado.
- Seu maroto, cheio de tesão hein?
Funcionara. Agora aquela mão feminina já não lavava, acariciava. Os seus meneios eram mais libidinosos, mais sensuais. Enquanto a estimulava por trás, arredou um pouco o fio das cuecas e sentiu a sua vagina experimentada e membranuda. Estava muito húmida.
- Isso, gostoso, isso. Você me agrada, sabia bonitão? Tome essa toalha. Isso. Agora pegue na sua roupa e venha comigo.
Bruna abriu a porta e gritou para o corredor.
- Vou passar”
Depois novamente para ele.
- Pode vir.
Seguiu-a até um quarto pequeno e quadrangular, quase todo ocupado por uma cama de casal. Ao lado da cama e em cima de uma mesa de cabeceira, estava um candeeiro com um abajur que pintava o quarto de rosa. Dirigiu-se a uma cadeira encostada a uma mesa onde um televisor mostrava pornografia americana. O pénis entumecido e hirto gingava como um badalo pesado ao ritmo dos seus passos.
A jovem ficou à porta do quarto a olhar para ele com aquele seu sorriso. Ele olhou-a de volta à espera de uma reacção, de uma iniciativa. Este silêncio prolongou-se até se erguer um certo embaraço entre os dois. Até que enfim ela perguntou:
- É a primeira vez que você vem a uma casa destas, não é?
- É – respondeu, firmamente.
- Pois, é que tem de dar primeiro a lembrança.
“A lembrança? Ah!”
- Quanto é?
- Por quanto tempo vamos namorar?
“Quanto tempo costuma ser?”
- Uma hora – tenteou.
- Nesse caso são cento e cinquenta Euros.
Procurou as notas e deu-lhas sem que os dedos as fizessem tremer. Ela saiu por momentos e ele ficou ali aos pés da cama, de braços caídos, num momento de suspensão em redor das palpitações do seu pénis.
Bruna voltou enrolada numa toalha amarela. Tirou-a sem qualquer pudor, logo sem qualquer erotismo, mostrando a sua nudez e nada mais do que isso. Ou não mostrando sequer, porque não havia nada para mostrar, porque ela, provavelmente, já nem estaria ali.
Ajoelhou-se aos seus pés, pôs um preservativo na boca e plastificou-lhe maquinalmente o pénis. Fê-lo com uma rapidez de reflexo, apertando-lhe uma nádega e olhando-o directamente nos olhos. Ao que o olhar do homem não respondeu. O que a fazia mais forte? Certamente que sim.
Já estou farto de escrever esta merda, quero ir para a cama, está um frio dos diabos e amanhã tenho de estudar Anatomia das 8 às 13.
Os cabelos negros. Os dois olhos então muito redondos. Para a frente a para trás. Frente trás, frente trás
um som de esparguete
Colocou uma mão na nuca dela e forçou um pouco mais o movimento. Depois
- Levanta-te. Põe-te assim de rabo.
Montei-lhe os quadris numa violência de domador e ela sacolejando espasmos de prazer assanhado.
Seguiu-se um cigarro silencioso. Tomei banho com os champôs delas.
Depois acompanhou-me à porta, “Volte sempre!”.
Confesso que voltei lá muitas e muitas vezes durante a minha vida, especialmente quando na cama esperava o sono.
Regressei ao carro de onde nunca chegara a sair. Os meus dedos afilados, no volante frio, nus. Uma nódoa nas calças. O jornal aberto na morte de Isabel.
Dessa vez o meu carro não passou o vermelho. Estava saciado, apesar de tudo.
Era para terminar aqui, mas vou avançar mais um “conhe”.
Cheguei a casa a meio da tarde. Abri a porta blindada (porquê blindada?) e um clarão de luz recebeu-me vindo da varanda da sala. As casas numa tarde de dia de semana, quarta-feira por exemplo, essas tardes, quando eu fugia da escola, eram de masturbação, de cigarros, de chocolates, deitado no sofá com um programa televisivo (muito provavelmente um concurso com muitos idosos na plateia) no écran e uma enorme letargia na nuca. Uma modorra nauseante que me pesava os olhos até à dor. E eu estatelado no sofá, barriga para cima, de pijama vestido.
Perdão, o pijama vestido apenas nas tardes dos dias em que friccionava o termómetro nas fibras do lençol e depois a minha mãe:
- Trinta e nove, credo! Eu telefono à irmã Lurdes, não te preocupes. (repararam na rima vocálica?)
E um beijo na testa que sabia a trinta e nove graus, de certeza.
De modo que de pijama ou de boxers e camisola interior, era consoante a manigância do filho da puta que fui. O sofá de pele com ruídos de verga. Os olhos pesados, as boxers descidas com o sémen a escamar na barriga.
Principalmente o torpor que fazia emergir uma contrição amadornada, um ressentimento que se manifestava num arrastar das pupilas, um arrependimento tão agudo, mas tão paralítico, que não me apetecia sequer ir limpar o plástico escamando na barriga. Um torpor, uma modorra tão tensa, de aguilhões, parecia que na nuca. Os velhos a vigiarem-me da plateia, a censurarem-se a lassidão, de vez em quando parecia que tinham olhos de demónio e eu sobressaltava-me, quer dizer, o meu coração sobressaltava-se, não eu que estava naquela ataraxia infernal. Se nessas alturas me dessem uma pistola para as mãos eu faria rebentar os meus miolos, ali mesmo à frente dos velhos todos.
- a culpa é do... – grunhia baixinho.
Eu sabia muito bem de quem era a culpa. A culpa era deles. Por isso eu tinha todo o direito aos chocolates e aos concursos televisivos. E ao cigarro na varanda, que me enjoava, que me enjoava até à dor. Estomagavam-me os SG Filtro que sabiam a tubos queimados. Eram feios como os dentes e os dedos do meu pai. Depois regressava ao sofá da sala, deixava-me cair nele fazendo-o recuar mais uns cinco centímetros, Puf! ia ter com os cabrões do velhos que não paravam de olhar para mim e a acenar que não com as cabeças remelosas. E lá me quedava com o estômago encrespado numa tempestade de ondas gástricas, a respirar cinzas de plástico queimado, o sangue todo a pesar-me na nuca que me impedia de ir aos rolos de cozinha limpar o outro plástico na barriga (que ia escamando à medida que secava).
Eventualmente, adormecia. Acordava na mesa da cozinha com um prato a fumegar ervilhas, ovo escalfado e rodelas de chouriço. A luz demasiado branca, as vozes dos meus pais demasiado altas a princípio. Os gritos só vinham no fim. E eu desgrenhado, de olhos pisados, a mastigar e a pensar que mastigava. “Pre...como é que é?”.
Voltando à vaca fria , tinóni xelelé espírito benfiquista quisto benéfico xuxu beleza sem efeitos secundários, cheguei a casa numa tarde que me fazia lembrar essoutras. Estava muito cansado, as minhas costas como que um ramo nodoso embutido nelas, uma dor ramificada nas costas, ainda olhei de soslaio para o sofá onde julguei entrever um velho nu a dizer que não com a cabeça. Corri para o meu quarto (que era também o da Isabel) e pus-me debaixo da colcha onde não nos podemos sentar, para não estragar. Procurei o sono. A Isabel estaria muito provavelmente com as outras Isabelas a chorar a Isabel brutalmente assassinada. Uma carpideira educada concertando com os secadores de cabelo ou com a asma das máquinas de cardio-fitness, mamas e cu.
E puxei a colcha até às orelhas, puxo sempre os lençóis até taparem as orelhas, desde pequeno que o faço.
desde pequeno
dormia sobre os gritos dos meus pais. Engolia-os sem saliva, quer dizer, sem lágrimas. Cada estalo fazia-me pestanejar. Os berros também. Passado algum tempo vinha o choro da minha recolher-se à marquise, para a qual dava a janela do meu quarto.
Puxava os cobertores, cobria-me com eles ou seja, tapava com eles as orelhas e esquecia-me da palavra prevaricação. Levantava-me e ia passeando pelo dicionário de sinónimos até encontrar prevaricação. Só a encontrava em abuso. Tentava ditadura, despotismo, atropelo, exorbitância, erro, excesso, mas só a encontrava em abuso. E o meu pai a exorbitar-se em gritos fulvos, os gritos que me mostravam num écran escuro da minha mente os olhos dele raiados de raiva. Eu sem me recordar do termo prevaricação. Se estivesse na escola ou noutro sítio qualquer, em me apetecendo ouvir prevaricação, encontrava-a sem dificuldades na minha cabeça, num quarto que tinha uma placa na porta que dizia “Memória”.
Mas lá em casa esquecia-me sempre da palavra e levantava-me sempre e ia passear pelo dicionário de sinónimos. Encontrava-a em abuso. Era tão sintomático, tão ritual e tão óbvio; e eu tinha consciência disso? Acho que não. Isso entretinha-me nesses momentos, visto que tentar um livro seria inútil. Quantas vezes estremunhava dos enleios de um livro com as pulsações de início de discussão. Pequenas notas, pequenas manobras de voz que a minha psique tão bem identificava e tão rapidamente. Quase tão rapidamente quanto detectava o tinir microscópico de umas chaves a saírem de um elevador. Então fechava o livro e adoptava uma rigidez fria de estátua. O sangue fugia das minhas mãos e dos meus pés. E depois
- Como é que é? Pre...não é exactor, nem ditador...
Depois era exactor até chegar a abuso.
Nas manhãs seguintes não me lembrava de nada, porque o sono da infância empurra tudo o que não presta bem para o fundo, para que essas coisas não empatem outras mais importantes ao crescimento.
Porque nas sextas-feiras havia gritos entre a cozinha e a sala, nas manhãs de sábado era mais difícil o silêncio, mais opressor, sala a sala, gestos cuidados, estendais a chiarem em algumas janelas do condomínio fechado, o ruflar de asas de um pombo, o céu opalino do Inverno. Forçava o sono, estendia-o até me persuadir que os devaneios eram sonhos. A minha mãe acabava por entrar no ar gasto do meu quarto, abria os estores numa presteza de enfermeira e a luz esquálida atravessava-me as pálpebras tensas. Despertava tão fresco, tão feliz!! Corria para os desenhos animados da sala, onde o meu pai lia o jornal. Dava-lhe um beijinho, ele sorria e eu acendia o televisor.
- És um tele-dependente – dizia, bem disposto. – e um livro-dependente. Logo vais arrumar o teu quarto, está bem?
- Está bem.
Deve ter sido aí que a Isabel começou a ser esfaqueada.
Eu até tenho muito que fazer e não deveria estar a perder tempo com porcarias destas, mas que fazer? Quando vocês pedem, caros leitores, eu não sei recusar. Por isso aqui está mais um texto eivado de pornografia barata. Estava (estou) particularmente bêbedo, pelo que me deu um intenso prazer escrevê-lo. Contudo, muito sinceramente, acho-o um tremendo Vesúvio de merda. Bem, sejam indulgentes...
Quando tenho muito, muito medo, os meus gestos antecipam-se, os meus olhos saltam na imagem à procura de salvação, as pessoas são feitas de detalhes. Ou seja, quando tenho muito medo fico bêbedo. E quando estou bêbedo e fumo, respiro veludos cremosos, docemente acres, sem que sobrevenha uma recriminação da consciência. Quando tenho muito medo posso fumar à vontade. Insuflo prazer, expiro calma e segurança – soprar o fumo é um suspiro de desprezo para o mundo. A morte cose-se mais na sombra e eu nem dou por ela. Isto quando tenho muito medo.
E quando me obcecava o medo por qualquer coisa, nunca era pela morte – nunca tive essa humildade. Era muito complexo. Nos tempos que correm o termo é “sofisticado”. Obcecava-me por coisas transitórias, suspensas. Precárias. Portanto, os meus medos eram obsessões. Por coisas lábeis. E a minha memória seguia as obsessões, pelo que vivia nelas, só nelas.
Eu vivia nas obsessões.
Por isso a memória trazia o segundo casamento dos meus pais que estava suspenso numa iminência.
Trazia as análises ao sangue.
Trazia a noite anterior com a Isabel.
Trazia sombras e respiros, que nem hoje posso
Tudo coisas suspensas, aguardando desfecho.
Eu era muito impet
Não, não, assim não consigo. Doutra forma.
Comprara o jornal por um motivo específico, mas acabei por usá-lo para queimar tempo. Desfolhava-o com calma sem conseguir ler uma linha seguida. Quando tinha muito medo conseguia desfolhar os jornais com certa elegância, sem que dobrasse folhas ou elas me caíssem nos joelhos.
Mesmo estando sentado ao volante do carro, sem plena liberdade de movimentos, passeava as folhas do jornal com grande desenvoltura.
Ou melhor, se calhar lia, mas não isolava palavras, não lhes dava um significado.
O meu carro ainda cheirava a pai, a homem maduro, a um perfume morno que amaciava.
Gostava muito do cheiro daquele carro. O odor masculino dos estofes de pele. Os estofes que brilhavam luxo, conforto, onde a Isabel (a princípio) deslizava a enroscar-se em requebros de cio.
Os estofes. O cheiro. O jornal. À espera de quê?
Os dedos amarelos e cascosos com unhas de madeira. Em casa da minha avó, na província, insectos por todo o lado, até dentro da minha roupa, a espetar ferrões com pêlos e venenos. Sangue a correr para o ralo, o escoadoiro, num rio de lacre quente. O cheiro a penas molhadas na água a ferver. Os coelhos, tão bonitos, em espasmos estúpidos – sem se queixarem. Depois pendurados de cabeça para baixo num prego na parede. A minha avó despia-lhes o casaco de felpa e eles magros cheios de frio. A parede do prego deixava ver tijolo áspero com reentrâncias de cimento. A cadela gorda de tetas chuchas, a rilhar a corrente – vinagre nas orelhas por causa das moscas na desova – a ladrar tosse, estrangulada pela coleira, a corrente a percorrer um arame de estendal.
Lembro-me que era em Camarate. Ainda hoje Camarate soa com um estalo. Prédios velhos e sujos por um ranço tóxico de fumos. O poviléu enxuto, turvado, à espera que o semáforo lhe desse um verde.
Os velhos azedos, beberricando cerveja e caracóis nas tavernas de plástico.
Um carro de ricos a cheirar a homem perfumado de notas, estacionado à frente do prédio onde aquelas desavergonhadas
à espera que o tempo passasse para que elas pensassem que eu vinha de longe, que não tinha telefonado dali.
A porta de vidro e alumínio bateu atrás de um jovem, um adolescente feio e bexigoso, que saiu do prédio com mais borbulhas, mais tímido ainda...
Eu sairia de lá mais...?
aquele valhacouto de desgraçadas
covil de drogadas?
Experimentava um nervosismo (não ansiedade) de primeira vez. No entanto, não era a primeira vez que ali estava
Sempre que telefonava (cheio de medo) falava demais, com delicadeza e elas
drogadas?
primeiro desconfiadas, depois riam-se e chamavam-me morzinho
quando eu colocava perguntas absurdas
- Posso escolher?
e elas
- claro morzinho, somos seis amiguinhas, etc...
O jornal continuava a rolar
Daquela vez é que seria. Daquela vez entraria. Daquela vez não me cairiam lágrimas antes de o dedo na campainha. Não fugiria para o carro acelerando pelo sinal vermelho – verde para o poviléu.
“E se te vêem? Ainda melhor, não é?”
Não.
Claro que é.
Momentos depois, uma frágua ardendo em labaredas que lhe lambiam as nádegas macias, vibráteis, que a queimava até às raízes das coxas. O tinir pressuroso da fivela do cinto, o zip do fecho das calças, as minhas mãos de homem a cingirem-lhe a cintura, gemidos fora de qualquer encenação derivado ao fogo e às labaredas, o leite morno a humilhá-la, os meus músculos tonificados, brilhantes, as minhas nádegas rijas, a robustez das minhas pernas em força.
É tudo mentira. Nem tenho músculos, nem as minhas mãos são de homem, porque nunca um dedo na campainha.
Mas seria aquela a vez em que tudo mudaria.
- Será necessário que leve preservativos?
- Oh, morzinho
é o que há mais em Angola
De súbito, o jornal acorda com uma notícia interessante: a filha de um conhecido empresário brutalmente assassinada
Conhecia-a. Creio que uma amiga de Isabel. Sim, uma amiga de Isabel.
Brutalmente espancada. De uma violência inconcebível. Sem pistas. Premeditado. Serial Killer Português?. Dizia o jornal.
Assassino? Ou assassina?
Assassino. Não homicida. Assassino.
A minha imaginação a fervilhar e outro medo a emergir. Uma mulher, uma jovem, sangue, sangue, violência, gritos abafados por uma mão de homem, por uma corda, um fio cortante. Não facas nem balas.
Força e violência. Um assassino em cima das argolas, dos anéis, dos cabelos com madeixas de ouro, do corpo voluptuoso, da roupa cara, do perfume francês, do sorriso soberbo, do riso comedido. Um assassino a esmurrar tudo isto, a macerar, a desfigurar, a amiga da Isabel escoriações, sangue, guinchos tão tão deselegantes, um riso de dor e humilhação, a pedantaria tão longe e o assassino a ver tudo aquilo
- Estás a chorar ou a rir?, já nem consigo distinguir puta de merda
só ele a ter essa vitória, a tê-la para si, a subjugar a Isabel e as amigas, a cuspir para elas...Um joelho a pisar seios morenos, o orgulho dos seios, os cabelos de oiro e flor a beber a lama do chão junto a um passeio talvez uma seringa próxima da cabeça dela e as mãos do assassino assépticas, cabedal luzidio, inexorável.
As luvas do assassino a penetrarem uma prostituta. Abrir a porta do carro. O meu sapato mastigou o alcatrão, eu a imaginar luvas de pele nas minhas mãos, a engrossá-las, um dedo de pele preta na campainha, a insistir. A prostituta:
- Morzinho?
- Abre a porta – disse o cabedal.
Um elevador velho com portas de grades, os cabos de aço a estalarem de esforço, o meu coração frio, inexorável.
Depois uma preta pequena e gorda, com um sorriso de dentes separados. Um
- Bom dia
em português de Portugal. A alcoviteira, com certeza. A alcoviteira
E afinal já lá estava, à porta do bordel?
À porta do apartamento onde se prostituíam brasileiras, portanto aquela era a alcoviteira.
- entre, entre.
Um sorriso agora sem dentes, os olhos pequenos sem fixarem os meus, antes nos tapetes puídos sobre alcatifa clara
- por aqui.
Um corredor estreito com as portas todas fechadas. As paredes despidas de quadros, só paredes de um branco sujo à míngua de luz. Uma porta aberta ao fundo do corredor. Uma sala de estar com sofás de napa azul, ar condicionado, uma janela sem cortinados, quadros com linhas eróticas, um mini-bar, um televisão com telenovelas.
- Pode se sentar.
Obrigado – a minha voz de cabedal, sem vestígio de frio, contínua e firme. O meu carro de homem maduro estacionado até eu acabar; quando eu saísse de lá mais...?
- Esteja à vontade, se quiser servir-se de uma bebida. Eu vou buscar as meninas
“Buscar”, logo as meninas são bonecas, senão “Chamar”.
- Obrigado.
A alcoviteira fechou a porta e eu fiquei sozinho, de perna cruzada, um friozinho aflorando no cabedal que se ia parecendo cada vez mais com a minha própria pele.
Sozinho com a telenovela, a esfregar as mãos e os joelhos, a energia a fugir-me do corpo e o fio em lugar dela. Se fosse criança chorava. Sentia o apelo das lágrimas algures na garganta. Ao observar as minhas mãos brancas fisgo o ouro da aliança. Pensei em tirá-la, em escondê-la no compartimento das moedas na carteira de
cabedal
mas resolvi ficar com ela, para ser mais
Mais o quê?
“Lá em Angola íamos às pretas porque éramos homens, percebes? Eu já estava casado com a tua mãe, mas íamos todos às pretas. Geralmente íamos às pretas quando chegávamos do mato. Enfrascávamo-nos com uísque e depois íamos às pretas. Até o general ia às pretas. Quer dizer, as pretas iam ao general. Oh, uma coisa que nunca faltava em Angola era uísque. Uísque e pretas”
Eu, ele tremia muito, tremia demasiado perante a porta que se abriria a qualquer momento. A expectativa infundia-lhe cada vez mais uma espécie indefinível de medo que começava, perigosamente, a raiar o pânico. Esforçava-se por combater esse frémito irreprimível mas o coração palpitava-lhe no peito, uma veia palpitava-lhe no ouvido anulando as falas dos actores brasileiros. A pulsação retumbava dentro da sua cabeça e a cada batimento o novelo de medo enfolava-se-lhe nas mãos, nos maxilares, nos joelhos, nos olhos que só viam a porta.
A porta. Toda a realidade se confinava àquela porta branca.
Uns risos meio reprimidos soaram no corredor, risos como os das suas colegas no Liceu, quando comentavam os rapazes a jogarem à bola na aula de educação física.
Eu nunca jogava à bola.
O medo passou pelo pânico mas logo se tornou branco, quando extravasou razão afora. Não sei se me fiz entender, mas foi exactamente assim aquilo que ele sentiu. O medo branco como uma ofuscação, um instante de eclipse em que os braços caiem e os lobos não têm de lutar mais porque, afinal, eu nasci para eles me comerem.
Os risos aumentaram para cessarem quando a preta gorda e baixa abriu a porta. Deixou passar a primeira menina fechando-me com ela na sala.
Era muito alta, tinha cabelos negros e compridos, a pele muito branca, mas os traços do seu rosto não escondiam as suas origens brasileiras, índias ou africanas. Envergava uma espécie de corpete negro e umas cuecas fio dental da mesma cor. Tinha um busto enorme, barriga lisa, ancas largas e pernas bem desenhadas. Dirigiu-se a ele com um sorriso bem maquilhado
- Olá, eu sou a Bruna – num tom melífluo e enfadado, como se estivesse farta de dizer sempre a mesma frase a sempre o mesmo homem.
Ele estava extasiado, mas não pela voluptuosidade daquela jovem que aparentava não mais que vinte anos. Ergueu-se um pouco do sofá – sem que as pernas cedessem, como temera – e recebeu os dois beijos sonoros que o protocolo da casa preceituava. Depois ela virou-se num volteio de manequim, caminhando afectadamente até à porta com as duas nádegas empinadas a sorriem-lhe a cada passo.
A porta voltou a abrir-se para deixar sair a primeira e entrar uma segunda. Esta era mais baixa, mais brasileira, de cabelos negros. Trazia um sorriso rasgado ao qual o jovem novo de fato e perna cruzada não conseguiu responder.
- Olá, eu sou a Carla, Dora, Samanta, Cátia, Neize.
Quando o último par de nádegas se despediu num riso saltitante, entrou a alcoviteira.
- Então, gostou? – tinha as palmas das mãos servilmente juntas.
- Gostei, gostei muito – respondendo do mesmo modo que o fazia quando a sua mãe, de olho negro, lhe perguntava se ele gostara da mousse de chocolate.
- E então, já escolheu?
- Pode ser a primeira.
- A Bruna. Muito bem.
Ia dizer “obrigado” quando o homem de cabedal o travou. Foi o homem de cabedal quem tomou conta das operações daí para a frente.
Finalmente saía daquela sala. A brasileira, um palmo mais alta do que ele, levou-o por uma mão até uma casa-de-banho ampla.
- Por aqui, morzinho.
Tinha a mão fria, levemente húmida, parecida com a sua. Contudo, recorde-se, agora a sua era de cabedal.
Na casa-de-banho, emparedada com azulejos azuis embaciados por um perfume vaporoso a duche, pôde ver, não sem certa estranheza, os objectos tão triviais e íntimos das prostitutas - champôs, escovas e pastas de dentes – com pequenas etiquetas designando a respectiva dona. Tirou um macaco do nariz e comeu. Perguntou à prostitua:
- Queres um?
- Claro, são de caranguejo?
- Não, são de galinha.
- Então pode tirar a roupa.
O homem enluvado sentiu uma ameaça de arrepio, mas que só serviu para o determinar ainda mais.
Começou por desafivelar o cinto e duma vez despiu as calças, as cuecas e as meias.
Bruna soltou um riso inofensivo, talvez de espanto.
- Já está com o pau grande, meu Deus!
Colocou as calças numa cadeira que ali estava. Entreviu a sua imagem reflectida num espelho. Gostou do que viu: um homem de olhar irredutível, ainda de blaser e gravata, com uma grossa erecção a levantar-lhe a camisa. Também conseguiu ver o olhar sorridente que Bruna lhe deitava no pau.
- Você é muito bonito...Se sente aí no bidé. Vamo lavar esse pauzão – riu.
Antes de genuflectir, sentando-se no esmalte frio do bidé, livrou-se da roupa que ainda tinha vestida. Bruna accionou a torneira, esperou pela água morna, esfregou as mãos com um sabonete líquido cor-de-rosa e começou a lavar-lhe as virilhas, o pénis e o ânus. Além do prazer mais epidérmico, a diligência da jovem ao lavá-lo trouxe-lhe uma agradável recordação de cuidados maternais, ou talvez uma reminiscência genética dos tempos idos em que as mulheres tratavam da higiene dos seus maridos. De qualquer forma, a intimidade daqueles gestos, os traços de ternura bem evidentes no rosto da jovem, estavam a corroer a intrepidez dessoutra entidade que se sobrepunha, dominando-o, ao homem assustado. Talvez por isso não se tenha admirado quando sentiu a sua mão deslizar por entre as nádegas da prostituta, que estava ajoelhada a seu lado.
- Seu maroto, cheio de tesão hein?
Funcionara. Agora aquela mão feminina já não lavava, acariciava. Os seus meneios eram mais libidinosos, mais sensuais. Enquanto a estimulava por trás, arredou um pouco o fio das cuecas e sentiu a sua vagina experimentada e membranuda. Estava muito húmida.
- Isso, gostoso, isso. Você me agrada, sabia bonitão? Tome essa toalha. Isso. Agora pegue na sua roupa e venha comigo.
Bruna abriu a porta e gritou para o corredor.
- Vou passar”
Depois novamente para ele.
- Pode vir.
Seguiu-a até um quarto pequeno e quadrangular, quase todo ocupado por uma cama de casal. Ao lado da cama e em cima de uma mesa de cabeceira, estava um candeeiro com um abajur que pintava o quarto de rosa. Dirigiu-se a uma cadeira encostada a uma mesa onde um televisor mostrava pornografia americana. O pénis entumecido e hirto gingava como um badalo pesado ao ritmo dos seus passos.
A jovem ficou à porta do quarto a olhar para ele com aquele seu sorriso. Ele olhou-a de volta à espera de uma reacção, de uma iniciativa. Este silêncio prolongou-se até se erguer um certo embaraço entre os dois. Até que enfim ela perguntou:
- É a primeira vez que você vem a uma casa destas, não é?
- É – respondeu, firmamente.
- Pois, é que tem de dar primeiro a lembrança.
“A lembrança? Ah!”
- Quanto é?
- Por quanto tempo vamos namorar?
“Quanto tempo costuma ser?”
- Uma hora – tenteou.
- Nesse caso são cento e cinquenta Euros.
Procurou as notas e deu-lhas sem que os dedos as fizessem tremer. Ela saiu por momentos e ele ficou ali aos pés da cama, de braços caídos, num momento de suspensão em redor das palpitações do seu pénis.
Bruna voltou enrolada numa toalha amarela. Tirou-a sem qualquer pudor, logo sem qualquer erotismo, mostrando a sua nudez e nada mais do que isso. Ou não mostrando sequer, porque não havia nada para mostrar, porque ela, provavelmente, já nem estaria ali.
Ajoelhou-se aos seus pés, pôs um preservativo na boca e plastificou-lhe maquinalmente o pénis. Fê-lo com uma rapidez de reflexo, apertando-lhe uma nádega e olhando-o directamente nos olhos. Ao que o olhar do homem não respondeu. O que a fazia mais forte? Certamente que sim.
Já estou farto de escrever esta merda, quero ir para a cama, está um frio dos diabos e amanhã tenho de estudar Anatomia das 8 às 13.
Os cabelos negros. Os dois olhos então muito redondos. Para a frente a para trás. Frente trás, frente trás
um som de esparguete
Colocou uma mão na nuca dela e forçou um pouco mais o movimento. Depois
- Levanta-te. Põe-te assim de rabo.
Montei-lhe os quadris numa violência de domador e ela sacolejando espasmos de prazer assanhado.
Seguiu-se um cigarro silencioso. Tomei banho com os champôs delas.
Depois acompanhou-me à porta, “Volte sempre!”.
Confesso que voltei lá muitas e muitas vezes durante a minha vida, especialmente quando na cama esperava o sono.
Regressei ao carro de onde nunca chegara a sair. Os meus dedos afilados, no volante frio, nus. Uma nódoa nas calças. O jornal aberto na morte de Isabel.
Dessa vez o meu carro não passou o vermelho. Estava saciado, apesar de tudo.
Era para terminar aqui, mas vou avançar mais um “conhe”.
Cheguei a casa a meio da tarde. Abri a porta blindada (porquê blindada?) e um clarão de luz recebeu-me vindo da varanda da sala. As casas numa tarde de dia de semana, quarta-feira por exemplo, essas tardes, quando eu fugia da escola, eram de masturbação, de cigarros, de chocolates, deitado no sofá com um programa televisivo (muito provavelmente um concurso com muitos idosos na plateia) no écran e uma enorme letargia na nuca. Uma modorra nauseante que me pesava os olhos até à dor. E eu estatelado no sofá, barriga para cima, de pijama vestido.
Perdão, o pijama vestido apenas nas tardes dos dias em que friccionava o termómetro nas fibras do lençol e depois a minha mãe:
- Trinta e nove, credo! Eu telefono à irmã Lurdes, não te preocupes. (repararam na rima vocálica?)
E um beijo na testa que sabia a trinta e nove graus, de certeza.
De modo que de pijama ou de boxers e camisola interior, era consoante a manigância do filho da puta que fui. O sofá de pele com ruídos de verga. Os olhos pesados, as boxers descidas com o sémen a escamar na barriga.
Principalmente o torpor que fazia emergir uma contrição amadornada, um ressentimento que se manifestava num arrastar das pupilas, um arrependimento tão agudo, mas tão paralítico, que não me apetecia sequer ir limpar o plástico escamando na barriga. Um torpor, uma modorra tão tensa, de aguilhões, parecia que na nuca. Os velhos a vigiarem-me da plateia, a censurarem-se a lassidão, de vez em quando parecia que tinham olhos de demónio e eu sobressaltava-me, quer dizer, o meu coração sobressaltava-se, não eu que estava naquela ataraxia infernal. Se nessas alturas me dessem uma pistola para as mãos eu faria rebentar os meus miolos, ali mesmo à frente dos velhos todos.
- a culpa é do... – grunhia baixinho.
Eu sabia muito bem de quem era a culpa. A culpa era deles. Por isso eu tinha todo o direito aos chocolates e aos concursos televisivos. E ao cigarro na varanda, que me enjoava, que me enjoava até à dor. Estomagavam-me os SG Filtro que sabiam a tubos queimados. Eram feios como os dentes e os dedos do meu pai. Depois regressava ao sofá da sala, deixava-me cair nele fazendo-o recuar mais uns cinco centímetros, Puf! ia ter com os cabrões do velhos que não paravam de olhar para mim e a acenar que não com as cabeças remelosas. E lá me quedava com o estômago encrespado numa tempestade de ondas gástricas, a respirar cinzas de plástico queimado, o sangue todo a pesar-me na nuca que me impedia de ir aos rolos de cozinha limpar o outro plástico na barriga (que ia escamando à medida que secava).
Eventualmente, adormecia. Acordava na mesa da cozinha com um prato a fumegar ervilhas, ovo escalfado e rodelas de chouriço. A luz demasiado branca, as vozes dos meus pais demasiado altas a princípio. Os gritos só vinham no fim. E eu desgrenhado, de olhos pisados, a mastigar e a pensar que mastigava. “Pre...como é que é?”.
Voltando à vaca fria , tinóni xelelé espírito benfiquista quisto benéfico xuxu beleza sem efeitos secundários, cheguei a casa numa tarde que me fazia lembrar essoutras. Estava muito cansado, as minhas costas como que um ramo nodoso embutido nelas, uma dor ramificada nas costas, ainda olhei de soslaio para o sofá onde julguei entrever um velho nu a dizer que não com a cabeça. Corri para o meu quarto (que era também o da Isabel) e pus-me debaixo da colcha onde não nos podemos sentar, para não estragar. Procurei o sono. A Isabel estaria muito provavelmente com as outras Isabelas a chorar a Isabel brutalmente assassinada. Uma carpideira educada concertando com os secadores de cabelo ou com a asma das máquinas de cardio-fitness, mamas e cu.
E puxei a colcha até às orelhas, puxo sempre os lençóis até taparem as orelhas, desde pequeno que o faço.
desde pequeno
dormia sobre os gritos dos meus pais. Engolia-os sem saliva, quer dizer, sem lágrimas. Cada estalo fazia-me pestanejar. Os berros também. Passado algum tempo vinha o choro da minha recolher-se à marquise, para a qual dava a janela do meu quarto.
Puxava os cobertores, cobria-me com eles ou seja, tapava com eles as orelhas e esquecia-me da palavra prevaricação. Levantava-me e ia passeando pelo dicionário de sinónimos até encontrar prevaricação. Só a encontrava em abuso. Tentava ditadura, despotismo, atropelo, exorbitância, erro, excesso, mas só a encontrava em abuso. E o meu pai a exorbitar-se em gritos fulvos, os gritos que me mostravam num écran escuro da minha mente os olhos dele raiados de raiva. Eu sem me recordar do termo prevaricação. Se estivesse na escola ou noutro sítio qualquer, em me apetecendo ouvir prevaricação, encontrava-a sem dificuldades na minha cabeça, num quarto que tinha uma placa na porta que dizia “Memória”.
Mas lá em casa esquecia-me sempre da palavra e levantava-me sempre e ia passear pelo dicionário de sinónimos. Encontrava-a em abuso. Era tão sintomático, tão ritual e tão óbvio; e eu tinha consciência disso? Acho que não. Isso entretinha-me nesses momentos, visto que tentar um livro seria inútil. Quantas vezes estremunhava dos enleios de um livro com as pulsações de início de discussão. Pequenas notas, pequenas manobras de voz que a minha psique tão bem identificava e tão rapidamente. Quase tão rapidamente quanto detectava o tinir microscópico de umas chaves a saírem de um elevador. Então fechava o livro e adoptava uma rigidez fria de estátua. O sangue fugia das minhas mãos e dos meus pés. E depois
- Como é que é? Pre...não é exactor, nem ditador...
Depois era exactor até chegar a abuso.
Nas manhãs seguintes não me lembrava de nada, porque o sono da infância empurra tudo o que não presta bem para o fundo, para que essas coisas não empatem outras mais importantes ao crescimento.
Porque nas sextas-feiras havia gritos entre a cozinha e a sala, nas manhãs de sábado era mais difícil o silêncio, mais opressor, sala a sala, gestos cuidados, estendais a chiarem em algumas janelas do condomínio fechado, o ruflar de asas de um pombo, o céu opalino do Inverno. Forçava o sono, estendia-o até me persuadir que os devaneios eram sonhos. A minha mãe acabava por entrar no ar gasto do meu quarto, abria os estores numa presteza de enfermeira e a luz esquálida atravessava-me as pálpebras tensas. Despertava tão fresco, tão feliz!! Corria para os desenhos animados da sala, onde o meu pai lia o jornal. Dava-lhe um beijinho, ele sorria e eu acendia o televisor.
- És um tele-dependente – dizia, bem disposto. – e um livro-dependente. Logo vais arrumar o teu quarto, está bem?
- Está bem.
Deve ter sido aí que a Isabel começou a ser esfaqueada.
Domingo, Outubro 26, 2003
UM DIA TOlDOS SEREMOS ASSIM
Se o dinheiro foi inventado pelo Homem, se o dinheiro é uma ficção, por que não usá-lo para prover a uma necessidade física e natural como é, por exemplo, a fome? Qual é a porra da dificuldade?
não me apetece escrever mais
nunca mais pego numa caneta, farto disto
Se o dinheiro foi inventado pelo Homem, se o dinheiro é uma ficção, por que não usá-lo para prover a uma necessidade física e natural como é, por exemplo, a fome? Qual é a porra da dificuldade?
não me apetece escrever mais
nunca mais pego numa caneta, farto disto
Sábado, Outubro 25, 2003
Das centenas de leitores que me escrevem semanalmente, dezenas perguntam-me acerca das minhas preferências literárias. Para esclarecer definitivamente este assunto:
O mundo conhece dois grandes escritores (o resto vive entre estes dois polos magníficos): António Lobo Antunes e Stephen King
Os meus livros favoritos?
- É uma pergunta cuja qualquer resposta dada será sempre incorrecta. Mas enfim, I´ll give it a shot:
(não tentem encontrar aqui uma gradação ou um escalonamento, é completamente aleatório)
- Missa in Albis, Maria Velho da Costa
- Livro do Desassossego, Bernardo Soares
- Sinais de Fogo, Jorge de Sena
- Cemitério dos Barcos sem Nome, Arturo Pérez-Reverte
- Montanha Mágica, Thomas Mann
- O Conto do Entardecer (este ainda não li, nem sequer está terminado, mas já tenho a convicção de que irá ser um monumento literário)
- Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, António Lobo Antunes
- Corações na Atlântida, Stephen King
- O Pioneiro (como sou seu autor, vejo-me obrigado a inclui-lo nesta lista, naturalmente)
- A Cabra (um nado-morto, um feto de ouro)
- Uivos no Abismo (um segredo perigoso)
- A Hora dos Direitos dos Animais, Fernando Araújo
O mundo conhece dois grandes escritores (o resto vive entre estes dois polos magníficos): António Lobo Antunes e Stephen King
Os meus livros favoritos?
- É uma pergunta cuja qualquer resposta dada será sempre incorrecta. Mas enfim, I´ll give it a shot:
(não tentem encontrar aqui uma gradação ou um escalonamento, é completamente aleatório)
- Missa in Albis, Maria Velho da Costa
- Livro do Desassossego, Bernardo Soares
- Sinais de Fogo, Jorge de Sena
- Cemitério dos Barcos sem Nome, Arturo Pérez-Reverte
- Montanha Mágica, Thomas Mann
- O Conto do Entardecer (este ainda não li, nem sequer está terminado, mas já tenho a convicção de que irá ser um monumento literário)
- Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, António Lobo Antunes
- Corações na Atlântida, Stephen King
- O Pioneiro (como sou seu autor, vejo-me obrigado a inclui-lo nesta lista, naturalmente)
- A Cabra (um nado-morto, um feto de ouro)
- Uivos no Abismo (um segredo perigoso)
- A Hora dos Direitos dos Animais, Fernando Araújo